Ainda dá tempo?

Gil Campos

 

Esta semana, diante do falso silêncio no interior de um vagão do Metrô, passei a observar o quanto as pessoas estão escravizadas ao tempo. A todo instante, aqui ou acolá, alguém estava olhando o visor do relógio. Na saída da estação Anhangabaú segui pela avenida Xavier de Toledo. Em 200 metros de caminhada, três pessoas me perguntaram as horas. Nada de “bom dia” ou um simples “olá”. O cumprimento da vez é: “que horas, por favor?”.

Aquela situação me fez lembrar um livro, que li há cinco anos, chamado Sobre o Tempo (Pulso Editorial, 2010, 286 páginas). Escrito pela fonoaudióloga Andréa Bomfim Perdigão, trata-se – na verdade – de um livro de entrevistas onde ela, a autora, tenta mostrar como as pessoas tendem a lidar com o tempo, não apenas o do relógio, como seus tempos internos e subjetivos.

Entre os entrevistados, destaco o grande mestre Ariano Suassuna, o jornalista Marcelo Tas, a Monja Coen, o cantor Tom Zé, o publicitário Washington Olivetto, o artista Domingos de Oliveira, o mestre espiritual Sri Prem Baba, a cineasta Andrucha Waddington, e tantas outras personalidades que nos doaram um pouco do seu tempo para tentar nos explicar o que é o tempo. Resolvi tirar um tempinho do meu tempo para reler Sobre o Tempo.

Me fez refletir o que disse o historiador de Filosofia Márcio Tavares D’Amaral. Para ele, as pessoas hoje não podem mais conversar porque elas são muito ocupadas. “Ser ocupado é um sofrimento”, assegura.  Há quem aconselha, e isso já ouvi muito, ser necessário tirar um pouquinho o pé do acelerador no dia a dia, e curtir. Mas cada um tem o seu tempo!

A Monja Coen discordou das frases tão usuais nos dias atuais, tais como: “Não dá tempo” ou “Não tenho tempo”. Na entrevista publicada no capítulo “O Agora Eterno”, ela afirma que “quanto mais coisas nós tempos para fazer, mais coisas nós somos capazes de realizar. Na programação de uma pessoa extremamente atribulada, sempre cabe mais alguma atividade”.

A verdade é que não dá para parar. O tempo passa de maneira diferente para cada um. Como disse a física Maria Cristina Abdalla, o “tempo passa diferente dependendo da velocidade em que você está”.

Dói aos meus ouvidos, por exemplo, quando alguém me diz que não leu tal livro “porque não teve tempo”. Impossível não se ter tempo para uma simples leitura. Será que dá tempo para reler o que a Monja Coen disse algumas linhas acima?

Fazemos o nosso tempo. Vivemos o nosso tempo. O seu tempo é diferente do tempo da pessoa que está agora ao seu lado, enquanto você dedicou um minutinho do seu tempo para ler este artigo literário. Às vezes, para alguns, a vida é louca por falta de um mínimo de organização; para outros, ela é gostosa de se viver, justamente por ser louca e desorganizada. Já pensou qual é o seu tempo? Pense e, assim, o aproveite da melhor forma possível; inclusive lendo bons livros.