O louco genial: Nietzsche e Carol

Gil Campos

 

Quando Carol descobriu que juntando algumas letrinhas se formava uma palavra, ela passou a frequentar a minha prateleira de livro, onde passava longos minutos, de pé, olhando fixamente para os livros perfilados e observando seus títulos. Ora a cabeça pendia para um lado e outro, ora dava centímetros passos laterais. Claro que na altura que sua visão permitia. Mas havia um ponto naquela prateleira que ela fixava continuamente, franzia a testa e balbuciava algo que eu não compreendia. Também confesso que nunca tive a curiosidade de perguntar algo, ao menos para ajudá-la.

Os anos se passaram e Carol se tornou uma leitora voraz. E, diante da mesma biblioteca, dias atrás, ela fez um comentário: “papai, quando era criança, eu adorava ler os títulos dos seus livros, mas tinha um que eu não conseguia pronunciar. Era aquele…”, e me apontou a obra Nietzsche – Biografia de uma tragédia (Geração Editorial, 1ª edição, setembro de 2001, 363 páginas), do escritor Rüdiger Safranski.

Uma década depois é que descobri que aquela apaixonada pela literatura, por Raulzito e pelos os Beatles, ficava tentando juntar as letrinhas para pronunciar a palavra Nietzsche. E esta semana, passei a reler a biografia deste gênio louco nascido na Prússia, em 15 de outubro de 1844, e que terminou seus dias numa camisa de força, “até que seu cérebro se apagou, e ele morreu apático, no dia 25 de agosto de 1900”.

Nietzsche foi um homem único na sua época. Dizia que queria tornar-se autor da sua própria vida, através de seu pensamento. No dia 29 de julho de 1888, ele escreveu a um amigo: “Absolutamente não é preciso, nem ao menos desejado, tomar partido em meu favor: ao contrário, uma dose de curiosidade, como diante de uma excrescência estranha, com uma resistência irônica, me pareceria uma postura incomparavelmente mais inteligente”.

Amado com a mesma intensidade com que era odiado, este magnífico filósofo deixou uma riqueza para muitas gerações: seu modo de pensar. Aliás, seu pensamento é existencial porque se trata da conformação de sua própria vida. É também experimental, já que “põe à prova todo conhecimento e tradição moral”. Ele foi muito mais que isso: foi provocador.

Conhecer a vida de Nietzsche (e uma das oportunidades para isso está na obra de Rüdiger Safranski) é conhecer a mediocridade que invadiu e procriou na sociedade humana até os dias de hoje.  Ele era uma usina de produção de interpretações. O próprio autor diz que “com o pensamento de Nietzsche não chegamos a parte alguma, não há resultante, não há resultado. Nele existe apenas a vontade da interminável aventura do pensar”, e essa vontade brilhou nos seus olhos até o último suspiro.

O amigo August Homeffer o visitou, já doente e totalmente enlouquecido, e constatou esse fascínio. “(…) os minutos em que estivemos em sua presença são das mais preciosas recordações de nossa vida (…) Apesar de ter os olhos baços e as feições abatidas, apesar do pobre estar deitado ali com os membros torcidos, mais desamparado do que uma criança, a sua personalidade emanava um fascínio, e revelava-se uma majestade em sua figura que nunca mais senti em nenhuma pessoa”.

E, com certeza, quem conhecer a obra deste gênio, também não será a mesma pessoa.