Gil Campos: “Zequinha, da cor de amora”

Gil Campos

 

“Lá vai Zequinha/com sua voz de tenor/cantando canções revolucionárias de amor/Lá vai Zequinha fazer a revolução/com flores nas mãos/um sorriso nos lábios/um forte aperto de mão/Lá vai Zequinha/fazer a revolução (…)”.

Mas quem era Zequinha? Era José Pereira de Araújo. Era um apaixonado. Um apaixonado por gente, pelas poesias, pelas canções. Um idealista. Sonhava com a revolução no país, Sua alma se contorcia brusca e dolorosamente diante de qualquer injustiça. Se comovia com a pobreza do povo brasileiro e com a submissão desse povo. Mas não apenas se comovia. Dentro do seu mundo, lutava do seu jeito por mudanças. Fazia o que estava ao seu alcance, como dar a própria roupa do corpo a um mendigo que bateu à porta pedindo ajuda.

Zequinha transpirava luta e sonhos de dias melhores. Transpirava também arte. “Lá vai Zequinha/Pra sua guerrilha/Sapé, Rio Tinto,  Alagoa Grande/A luta, o sonho…/A libertação da classe operária (…)”.

Torneiro mecânico, ele foi denunciado, perseguido, preso ao meio-dia de um dia qualquer, de 1974, enquanto trabalhava numa retífica, na rua João Suassuna, na cidade de Campina Grande, na Paraíba. Humilhado, animal indefeso, amedrontado e ferido, mas disposto a sangrar até morrer pelo país, foi levado para Fernando de Noronha pelos abutres verde-oliva.

“Lá vai Zequinha/Preso pela opressão/O pau-de-arara, a luz na cara…/A tortura…/O medo, o medo de 74 (…)”.

Meses depois, estropiado, dilacerado, em frangalhos, mas firme na sua essência revolucionária, aquele torneiro mecânico voltou para casa. “La vai Zequinha liberto/Asa, pássaro, Ícaro ressuscitado/Correndo na noite da estação/Lá vem Zequinha/Repetindo seu refrão de solidariedade/Lá vem Zequinha repetindo que ‘- O mundo marcha para o socialismo!’”. Ele voltou, mas o coração não suportou.

Zequinha, orgulho paraibano, deixou suas sementes: a liberdade de imprensa, a liberdade de manifestação, o povo nas ruas, a insatisfação, a luta contra a opressão. Deixou também para nós Fidélia Cassandra, a autora deste poema “Zequinha, o vermelho”, publicado no livro “Amora” (Editora da Universidade Estadual da Paraíba, 2010, 141 páginas), um dos livros de minha cabeceira.

Aliás, o amor de Zequinha pelo socialismo o fez homenagear o líder cubano Fidel Castro ao batizar a filha de Fidélia Cassandra, assim como outros filhos – Vladimir Bolívar e Olga Leocádia, por exemplo. Mas é Fidélia que mais herdou atributos que marcaram a vida de Zequinha: a bela voz no cantar, a poesia e o gostar de gente. Herdou o amor pelas coisas do socialismo. Seu poema Cuba é magnífico: “É outra ilha que amo/Além daquela que flutua no meu peito/Sem limites, sua terra/Amamenta as flores/E seus homens semeiam/O coração com uma amizade continental/Ardente”.

Valeu Zequinha, por tudo. E por Fidélia.

A dona dos dois cuscuz

Gil Campos*

 

Nem todo Severino é “Biu”, como garante o dito popular. Prova maior disso é Severino Andrade da Silva, conhecido no mundo da poesia popular e do cordel como “Zé da Luz”, nascido em março de 1904, em Itabaiana, interior paraibano. Na época, a cidade era o epicentro da Paraíba com sua movimentada estrada de ferro. E foi ali que Zé da Luz, na infância, teve contato com a literatura trazida pelos viajantes.

Conheci a obra de Zé da Luz no início da adolescência, em Campina Grande (onde também morou nosso poeta popular); precisamente no cabaré da feira central, onde havia uma quenga conhecida por Zefa Cega, que não tinha a mão e nem o braço, somente o antebraço. Naquela época, os adolescentes iam para o forró no cabaré, aos sábados, dançar só com Zefa. Isso porque, como só tinha o antebraço, a solução era segurar o seu seio direito para curtir o “rala-bucho”, e imaginar mil besteiras.

Ouvia os violeiros recitando os poemas de Zé da Luz. Ficava vislumbrado com a profundidade da poesia popular deste conterrâneo. Ele escrevia do jeito que o povo falava, com seu mais verdadeiro dialeto, que considero ser a maior identidade cultural de um povo.

E havia um poema, em especial, que mais deixava meus ouvidos atentos. Chamava-se “As Flô de Puxinanã”. Na verdade, tratava-se – descobri isso muito tempo depois – de uma paródia de “As Flô de Gerematáia”, de Napoleão Menezes

Puxinanã, para quem não sabe, é uma cidade onde meu avô Beltrando tinha um sítio onde eu costumava passar os finais de semana com a família, correndo entre as roças de feijão e subindo nos cajueiros sempre acompanhado do meu primo José Lavaneri, o “Nerinho”.

O poema fala de três irmãs que moravam na cidade. E que diz o seguinte: “Três muié ou três irmã, três cachôrra da mulesta, eu vi num dia de festa, no lugar Puxinanã/A mais véia, a mais ribusta era mermo uma tentação! Mimosa flô do sertão que o povo chamava Ogusta/A segunda, a Guiléimina, tinha uns ói qui ô mardição! Matava quarqué cristão os oiá déssa minina/Os ói dela paricia duas istrêla tremendo, se apagando e se acendendo em noite de ventania/A tercêra, era Maroca, com um cóipo muito má feito. Mas porém, tinha nos peito dois cuscús de mandioca/Dois cuscús, qui, prú capricho, quando ela passou pru eu, minhas venta se acendeu cum o chêro vindo dos bicho/Eu inté, me atrapaiava, sem sabê das três irmã

qui ei vi im Puxinanã, qual era a qui mi agradava/Inscuiendo a minha cruz prá sair desse imbaraço, desejei, morrê nos braços, da dona dos dois cuscús!”.

E, assim, durante parte da minha meninice, até mesmo na adolescência, quando eu ia a Puxinanã, tinha esperança de sentir aquele perfume da dona dos dois cuscuz, e que eu nunca encontrei. Aliás, Zé da Luz morreu em fevereiro de 1965, no Rio de Janeiro, levado pela tuberculose, mas deixou para a cultura popular um rico acervo de poesia tão cantada e admirada pelo povo nordestino.

*Gil Campos é de Campina Grande-PB e trabalha como diretor de redação na empresa Jornal Estação, em Guarulhos-SP.

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