Desejos freiráticos

Gil Campos

 

Houve um período, precisamente nos séculos 17 e 18, que tanto em Portugal como no Brasil, a vocação religiosa não era o único fator para se enviar uma mulher a um convento. “Elas podiam ser enclausuradas por rebeldia, excesso de sensualidade, de intelectualidade, por ter perdido a virgindade ou, simplesmente, pelo status que ter uma filha freira conferia às famílias” bastardas.

Se a mulher tivesse uma personalidade excessivamente apaixonada e romântica, ou um corpo que atraísse os olhares mais maldosos e vorazes dos homens, esta também seria uma forte candidata a ser trancada nas celas das instituições religiosas da época.

E eram justamente nas celas escuras dos conventos onde, se acreditavam, moravam os demônios do sexo e da luxúria. E a pobre mulher, candidata à freira sem nenhuma vocação religiosa, era considerada o templo pervertido onde este espírito costumava morar. Essas mulheres costumavam atrair adoradores platônicos, os “freiráticos”, que não raro, pulavam os muros dos conventos, “compravam” as madres superioras e subornavam padres para terem acesso aqueles corpos virginais.

Muitos destes apaixonados eram senhores da alta sociedade, condes, marqueses, reis. Um deles escreveu a uma freira: “Quando eu estive em vossa cela/Deitado na vossa cama/Chupando nas vossas tetas/Então foi que me lembrei/Linhas branca, linhas pretas”.

Os escândalos nos mosteiros foram tantos, que Dom João V iniciou uma feroz perseguição aos freiráticos. “As cadeias se encheram de homens flagrados em seus amores proibidos. Freiráticos foram desterrados para Angola, para o Brasil, foram espancados ou açoitados, tosquiados de multas pelo Desembargo, presos em hospícios ou agrilhoados no Aljube”.

Mas, consta que Dom João V não era o mais indicado a essas perseguições, pois costumava fazer leituras nos conventos com freiras sentadas no seu colo.

Todas essas histórias podem ser conferidas no livro “Que seja em segredo – Escritos da devassidão nos conventos brasileiros e portugueses dos séculos XVII e XVIII” (coleção L&PM Pocket, da L&PM Editores, vol. 1171, 128 páginas, www.lpm.com.br), da escritora Ana Miranda. Trata-se de um brilhante trabalho de pesquisa histórica, com descobertas de escritos de devassidão nas celas escuras das freiras.

Como o poema de Antonio Lobo de Carvalho, conhecido por Lobo da Mandragoa, que diz: “Que és puta provarei, minha Terência/Puta, e mais puta do que as mesmas putas;/Tu és freira, e aqueloutras, bem que inuptas,/Sequer voto não tem continência”. Ler a obra de Ana Miranda, é conhecer esta devassidão.