Ariano Suassuna e a genialidade de mostrar o nordeste cru e belo

Érica Rodrigues

 

É difícil lembrar a primeira vez que um nordestino ouve falar em Ariano Suassuna. A obra do mestre é tão ampla e enraizada na nossa cultura que já se tornou parte da paisagem, da fala, parte do povo. Hoje Ariano completaria 90 anos e fica para nós a lembrança de tudo o que ele sempre representará: um nordeste cru e simples, porém belo!
Lembro-me que eu tinha cerca de 15 anos quando o vi pela primeira vez, apresentando uma aula-espetáculo em São José do Egito-PE.

Na época secretário de Cultura do Estado de Pernambuco, ele percorria as cidades mostrando ao povo gratuitamente um pouco da cultura nordestina. Lembro que fiquei encantada em ver aquele ídolo ali na minha frente, em um lugar tão distante, numa cidade tão pequena… Em sua fala, ele disse que quando criança andava por aquelas redondezas indo de Taperoá até a fazenda São Pedro dos Dantas.

Imaginei como seria o Ariano menino… será que já era um gênio tão falante e espirituoso?

Talvez o segredo seja que ele era gente como a gente, que mesmo tendo nascido em um palácio do governo, na capital paraibana, nunca se esqueceu do sertão onde brincou e fantasiou histórias de menino, das figuras que viu e conheceu em Taperoá.

Rogaciano Leite, poeta da minha terra, que muito tempo atrás ajudou Ariano a realizar o primeiro Congresso de Cantadores do Recife, escreveu:

Na voz do bardo matuto
Há tanta brasilidade
Que penso que’alma da terra
Encarnou-se na saudade
Para cantar na garganta
Dessa caboclo viril
Cuja face embraseada
Parece que foi pintada
Com tinta de pau-brasil!

Esses versos me fazem lembrar o sertanejo que o mestre Ariano retratava em suas obras: forte, simples, mas capaz de enfrentar a aridez e a dificuldade com um sorriso no rosto.
Sempre sentiremos falta de sua mente brilhante!