Gil Campos: O Livro Vermelho, de Mao Tsé-Tung

Gil Campos

 

No final da década de 1980, na riquíssima militância intelectual, cultural e de luta do Partido Comunista do Brasil (PC do B), em Campina Grande, no agreste da Paraíba, havia um livro na biblioteca do partido que era considerado deveras proibido. Sair com aquele livro pelas ruas nem pensar! Levá-lo para casa teria que se pensar numa verdadeira “operação de subversão”, com esconderijos ultra-secretos e nada de abrir o bico sobre a obra nem para a própria mãe, sob o risco de envolver toda a família em caso de uma suposta descoberta pelas forças repressoras do estado. Era este o clima que vivíamos.

E assim foi com aquele livro “proibido”, que acabei levando para casa. A obra chamada “O Livro Vermelho – Mao Tsé-Tung” (Global Editora, 1972, 339 páginas) trazia uma estrela amarela perdida na vermelhidão da capa.

A primeira coisa que fiz foi procurar um local para escondê-la. O livro passou um período no compartimento do fogão, abaixo do forno, que achava não servir para nada; depois mudou-se para cima do telhado, sob a proteção de algumas telhas e vários sacos plásticos. Esse novo esconderijo rendeu-lhe algumas manchas desbotadas em suas páginas.

Mas o que continha naquele livro? Na verdade, trata-se de uma coletânea de citações do líder comunista Mao Tsé-tung e foi organizado por Lin Piao, seu ministro da Defesa. Traz opiniões do dirigente sobre cultura, religião, proletariado, Exército Popular, os jovens e a luta de classes, como “Devemos apoiar tudo o que o inimigo combate, e combater tudo o que o inimigo apoia (página 17)”.

Na sua primeira lição, e isso fazia tremer na época as estruturas do militarismo, o “O Livro Vermelho” deixava claro que “para fazermos a revolução, necessitamos dum partido revolucionário. Sem um partido revolucionário, sem um partido fundado na teoria revolucionária marxista-leninista, é impossível dirigir a classe operária e as grandes massas do povo à vitória sobre o imperialismo e seus lacaios”.

Deixa também uma lição sobre as armas, aliás, a minha lição preferida: “As armas são um factor importante na guerra, mas não são o factor decisivo. É o homem, e não as coisas, quem constituiu o factor decisivo”.

Mao foi um dos principais teóricos da guerra popular revolucionária  e seu livro, uma das obras mais lidas do mundo, virou uma espécie de bíblia da juventude chinesa nas décadas de 60 e 70 e foi peça-chave de um dos momentos de maior fervor e fanatismo revolucionário do século 20, a chamada Revolução Cultural. “O Livro Vermelho” continua mais atualizado que nunca. Viva a revolução!

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