Destá, seu cabra danado de arretado

Gil Campos*

 

Dias atrás, uma palavra, uma só palavrinha de cinco letras e duas sílabas me desmoronou. Vou explicar o porquê. Desde que sai de Campina Grande, na Paraíba, em 1997, em um “exílio” forçado por conta de denúncias que fiz contra policiais quando atuava como repórter investigativo, prezo por manter o meu sotaque, minha maior identidade. É claro que, com o passar dos anos e convivendo com outra regionalidade, novas palavras e alguns sotaques passaram a fazer parte do meu vocabulário. Algumas expressões do “nordestinês” caíram no esquecimento por conta do que eu já expliquei.
Mas me peguei ouvindo um forró danado de bom, de um cabra arretado chamado Dorgival Dantas. O forró Destá (a mesma coisa de “deixe estar”) triscou na minha alma nordestina, lascando meu coração em cruz. Foi uma cipoada de lascar o cano na saudade. Naquela hora deu vontade de tomar uma lapada com uns pedacinhos de galinha de capoeira na graxa.
E resolvi ainda mais fortalecer a minha maior identidade que é o meu sotaque. Há estudiosos que dizem que sotaque é o mesmo que dialeto; outros não. A verdade trata-se de uma variante da língua portuguesa mais usada nos estados nordestinos, sendo o dialeto com o maior número de falantes da região, com mais de 53 milhões.
O jornalista Fred Navarro, nordestino que deixou sua terra não sei porquê bixiga, lançou em 2004 o “Dicionário do Nordeste” (editora Estação Liberdade, 399 páginas) com mais de 5 mil palavras. Um trabalho riquíssimo que nos dá oportunidade de conhecer melhor o dialeto que falamos no Nordeste. Ele só é possível pelo fato de a língua, como qualquer uma outra, ser heterogênea, conforme já explicou a professora da PUC-SP, Dieli Vesaro Palma. “O dialeto trata-se da variação geográfica, regional, de uma língua nacional”.
Lembro que, quando cheguei por estas bandas, alguns amigos perguntavam o que danado que estava falando, e pediam um dicionário. Pena que eu não conhecia o trabalho de Navarro!
Tenho acompanhado, com um nó na goela, a determinação de algumas emissoras de TV para que seus âncoras tenham uma só expressão de linguagem. Ou seja, o apresentador de um telejornal do Maranhão, por exemplo, não poderá comentar algum noticiário usando algumas expressões de linguagem característicos da região. Considero isso um crime, pois isso tira a mais autêntica identificação de um povo. Acho que não devemos dar cabimento a isso.
Não devemos ter vergonha das nossas expressões populares; pelo contrário, vamos fortalecê-las. Quem falar ao contrário, respeito, mas comigo é motivo de arenga e me causa um aperreio de lascar a taba do queixo.
O Brasil é rico, principalmente por conta de sua diversidade cultural, seus sotaques ou dialetos, como queiram chamar. E, quanto a Dorgival Dantas, destá, pra esse cabra não tem pareia.

*Gil Campos é de Campina Grande-PB e trabalha como diretor de redação na empresa Jornal Estação, em Guarulhos-SP.

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