Crítica: Vice é um retrato vilanesco da política americana atual

vice

Com uma proposta ousada, Adam McKay, diretor de Vice, resolveu protagonizar uma personalidade que sempre foi mero coadjuvante na política dos Estados Unidos. Dick Cheney, o vice presidente norte americano, que apesar de ser o segundo na linha de sucessão presidencial, ficando apenas atrás do presidente George Bush. Ele foi o grande articulador durante os oitos anos da presidência. Uma figura que teve quase nenhum reconhecimento por suas ações de modo geral, já que a persona que transmitia todas as decisões e atitudes era George Bush, mas quem era a mente sagaz por trás de todos os acontecimentos e as medidas na política americana foi justamente o vice, Dick Cheney.

O longa traz um diferencial enorme em relação aos outros filmes estadunidenses. Aqui não temos um patriotismo exacerbado e figuras que são do meio político vistas como grande heróis da nação. Muito pelo contrário, o roteiro descreve minuciosamente, na medida do possível, quem foi Dick Cheney. Desde o inicio do filme eles deixam claro que fizeram o melhor que puderam, já que Dick Cheney é um dos homens mais reservados deste mundo devido ao seu antigo cargo e a todas as polêmicas envolvidas, que foram as estratégias adotadas durante a campanha de George W. Bush. Principalmente após os atentados às torres gêmeas em 11 de setembro de 2001, quando a enfurecida América declarou guerra ao terror, ou seja, o governo não iria somente atacar a Al-Qaeda, mas sim o Iraque, porque é muito mais fácil você culpar um país inteiro do que apenas uma organização terrorista.



Todo o material do filme é muito ousado. Vale destacar a edição, que usa de artimanhas para exemplificar questões extremamente burocráticas no campo político. No enredo temos um narrador que basicamente explica para o público tudo o que está acontecendo em tela. Adotar esta estratégia é extremamente perigoso já que contraria as regras do cinema e pode acabar ficando cansativo. Entretanto, como já foi visto no filme A Grande Aposta, o diretor usa desses recursos explicativos como uma forma de mostrar seu estilo, o que acaba se tornando em algumas cenas  somente como um acessório. Caso não houvesse um personagem narrando de forma irônica os acontecimentos do filme isso não faria falta, é só um complemento estilístico do Adam McKay.       

Como já citado antes, o longa não busca enaltecer a política norte americana, ele mostra um período do país que mais teve influência na história moderna. Ousa-se dizer que em certos momentos o humor negro adotado em cena lembrou muito o humor característico de Monty Python no sentido de debochar das próprias diretrizes extremamente polêmicas que a Casa Branca resolveu tomar em relação ao terrorismo. O povo americano estava demasiadamente enfurecido com o que aconteceu em Nova York, entretanto não sabiam o que Al Qaeda significava, o que eram e por quem eram formada, então o governo rapidamente resolveu o problema, dando vida para a face do grupo. É muito mais fácil culpar os islâmicos pelo ocorrido do que somente algumas pessoas deste grupo, e a partir daí nasce, ou melhor floresce, a eterna luta dos Estados Unidos com o Oriente Médio.

vice-amy-adams

O responsável de dar vida a um dos homens mais poderosos dos Estados Unidos é o ator Christian Bale, que é mundialmente conhecido por se transformar inteiramente para seus personagens. Mais uma vez o ator engordou 20kg para interpretá-lo e também fez exercícios para engrossar o pescoço. Todos esses esforços foram recompensados com uma indicação ao Oscar, ao qual é um dos favoritos a ganhar. O mais interessante na atuação não é somente seus esforços físicos para incorporar o personagem, mas também o método por ele usado. Pode-se notar o comprometimento dele em ser idêntico ao Dick Cheney, na forma que fala, no tom de voz, como sorri, como articula. Suas expressões são extremamente precisas, nada fora do lugar, tudo no seu tempo certo e isso é um deleite, uma atuação de qualidade.

Outro ponto que deve ser destacado é a Amy Adams, que interpreta a Lynne Cheney, esposa do Dick e principal incentivadora para que seu marido deixasse de ser um eletricista bêbado para ser um homem bem sucedido na política. Vale dizer que ela é o motivo de todo o sucesso de seu companheiro. Toda sua ganância é transmitida em suas atitudes e opiniões conservadoras. Ela é o equilíbrio e também um dos componentes da mente de Dick. A obra traz um retrato das consequências sociais e políticas de como os Estados Unidos se encontram atualmente, com todos os processos de decisões que afetam todo o mundo. Ele é uma explicação para os fatos atuais, todo o caos que se propaga devido à maior potência econômica do mundo. Aqui temos os Estados Unidos como vilão da história e não como um modelo a ser copiado para outros países.

 

Assista ao trailer do filme:

 

*Isabelle Vasconcelos/Estagiária sob supervisão

Foto destaque: Divulgação

 

Leia também: Crítica: Green Book é o exemplo de que mudar de opinião nem sempre é ruim

 

Gostou do conteúdo? Então não esquece de ativar as notificações no sininho, no canto inferior da tela do desktop!

Aproveita e segue a gente no nosso Instagram e Facebook para ver o conteúdo que postamos por lá! <3

 

Deixe seu comentário!
%d blogueiros gostam disto: