Artigo: “Um poeta é puto”

Gil Campos

 

Não lembro em qual ocasião nos encontramos pela última vez. Só tenho a certeza que esse encontro aconteceu em João Pessoa, capital paraibana, no dia 28 de outubro de 1993 quando,  por ele, fui presenteado com um vinil com a seguinte dedicatória: “Com um grande abraço do companheiro da arte e imprensa”. Passaram-se mais de 23 anos até que, nesta Terça de Carnaval, apreciando uma cerveja e lendo um livro sobre a ditadura militar, inexplicavelmente, me veio à mente o amigo e o presente. Foi algo como um estalo, ou insight como queiram.

Numa padaria, a dois quarteirões de casa, não esperei terminar a bebida, que até então estava por demais prazerosa, e retornei a passos largos entre pernas curtas para procurar o vinil. Tinha certeza que o tinha, mas não sabia onde se encontrava. E, literalmente, desmontei o escritório onde guardo meu passado.

Eis que, depois de horas, estava em minhas mãos com a obra SPP – Sociedade dos Poetas Putos, gravado em 1990 pelo amigo, colega de imprensa e, hoje, confrade da Academia de Letras – ele da Paraibana (APL) e eu da Guarulhense (AGL) – Carlos Aranha. Faz tempo, hein companheiro!

Limpei minha vitrola e coloquei o vinil. Ao som de Aranha, retornei à cerveja. Carlos Aranha é um desses artistas que considero “patrimônio tombado da Paraíba”. Seja pela sua arte, seja por ele ser um ser “rebelionário” e um mito. Aliás, não é qualquer um que tem uma ligação visceral-espírita com o nosso maior poeta Augusto dos Anjos.

No encarte do SPP foi escrita uma pequena biografia do artista, nascido em 1946. Nela, nosso multimídia descreve a música e a poesia como “as coisas reais do coração”, e foi a partir deste músculo vital à nossa sobrevivência que ele passou a revolucionar a cultura paraibana, tendo sido destaque na geração 1968, quando participou do II Festival Paraibano da Música Popular Brasileira, e não parou mais. Ou seja, por meio da música e da poesia, ele chacoalhou os alicerces paraibanos e tudo valeu a pena, ao contrário da frase de Bob Dylan que o próprio Aranha transcreveu no encarte do seu trabalho e que diz: “Se pensais que vale a pena salvar a vossa geração, melhor é que comeceis a nadar porque os tempos estão a mudar”.

Sim, os tempos mudaram, mas Aranha continua a mesma joia da nossa cultura, muita mais lapidada, reluzente e valiosa. Aranha merece ser estudado.

A própria letra da obra Sociedade dos Poetas Putos é um chute nos culhões de uma sociedade hipócrita. E daqueles que escrevem meia dúzia de palavras com rimas e se intitulam “grandes poetas”.

A SPP sempre estará mais que atualíssima: “Quando me faltou a sensação de jornalista, senti não ser um bruxo nem David Copperfield; me senti como um poeta muito puto, incapaz de vender coca, o corpo, o absurdo… O primeiro prédio era um fero-de-engomar, passando meia, vaginas, veias, confissões, como se o mundo fosse a roupa de Beto Barbosa usada por novos cartas, pais e profissões. Apesar de ser poeta ao mesmo tempo puto, jamais imaginei a ilusão maior do menor luxo. Enquanto a coca enche o nariz, a grana incha a matriz, o pênis penetra a velha atriz. Há pouco que poetar e discursar, há muito que ganhar no fio da navalha, fazer da vida o começo do fim do nada. É bom gozar no absurdo natural, na sociedade dos poetas vivos um poeta é puto”.

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